A lentidão, o retardar propositado de sensações, o prolongar exaustivo do prazer, o tantricamente cansatuvo amor, o “nem se vem, nem sai de cima”, nunca foram do meu agrado.
Existe aquilo que, simplificando, chamo o “silvo da serpente”.
É o instante brevíssimo em que o orgasmo se torna avassalador, impaciente, inevitável e impossível de se retardar, de se adiadar.
O “Silvo da Serpente” é o instante em que o meu corpo arqueia e fica rouco, é o instante em que fico menor que o sexo que faço e ultrapasso o paraíso atropelando os anjos.
Não se adia o meu orgasmo. Não se atrasa o jacto (falo de aviões) que me leva rumo à mais perfeita das inconsciências.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente”, usando estratagemas para prolongar a noite e a nudez que ofereço, o meu cérebro invade as sensações que até ali lhe eram vedadas.
Racionalizo tudo.
Todos os meus poros se transformam em receptores de informação clara, nítida, “computorizada”, matemática, crua e nua, isenta de prazer e desconfortável para o meu parceiro.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente” prolongam pela noite dentro, horas a fio, a erecção, arriscam a minha ausência de prazer e abrem o palco à comédia que vejo nos esforços, agora inúteis, do parceiro extenuado, quase morto de tão gasto.
Todo o orgasmo deverá ser Wagneriano e chegar no momento em que se abre o pano e se ouve aplaudir. Não adianta cantar árias de ópera bufa, mesmo quando sabemos que, se cantarmos muitas, podemos retardar o fim do espectáculo.
7.10.2026
O “Silvo da Serpente”
7.09.2026
Manual da puta - manufaturas
Por norma, uma puta tem de ser indiferente ao formato dos homens que com ela vão para a cama sabendo que o custo da proeza será muito bem cobrado. São homens que raramente lhe dão prazer sexual digno de registo, mas que conseguem como nenhum dos outros fornecer-lhe ferramentas que permitem que usufrua de todos os outros prazeres que existem.
É também normal que aceite as fantasias de cada um. Embora selectiva, uma puta tem de ser flexível. Pode recusar as exigências que implicam uma farda ou máscara, mas tem de ser benevolente em relação às outras.
As que não incomodam, nem perturbam fisicamente, devem ser rentabilizadas.
É essencial que se aprenda a gostar do cliente que suplica que o amarrem, nu, à cama e que o masturbem de modo tão lento quase até à agonia. Aproveitemos a conta bancária e as transferências de somas que vamos insinuando.
Exige apenas a paciência e a perícia. Nada mais do que isso.
As proezas que nos incomodam, podem ser substituídas por manobras de diversão e é por isso que há que aprender muito cedo a masturbar os homens e aperfeiçoar a técnica. Temos de elevar a masturbação a um nível inimaginável. O prazer que é causado deve ser idêntico ao das orgias mais perversas. Se conseguirmos retardar-lhes o orgasmo durante tempo suficiente, ejacularam como bichos acossados, ganindo e uivando. Depois não pedem mais nada.
Aborrecem, mas viciam-se.
7.08.2026
Notícias de putas
Estive ontem atenta à reportagem sobre prostituição.
Não que me desperte interesse as discussões acerca do assunto. São-me indiferentes as opiniões de intelectuais e estudiosos (nem sempre coincidem) acerca de matérias que nunca irão entender a não ser que as paguem. O que realmente me chamou a atenção foi a peça jornalística sobre as “prostitutas de luxo” ou “acompanhantes”. A imagem que é dada da mulher que escolheu ser puta nesta “categoria” ou é falsa ou tenho de admitir que deixei de compreender o mundo em que me situo. Jamais uma “acompanhante de luxo” permite uma exposição daquelas e jamais será capaz de inscrever o nome e a imagem num site destinado a captar clientela. Nunca conseguirá ser tão vulgar, tão banal e tão grosseira como os sapatos de plataforma, as meias pretas rendadas, a lingerie rançosa e pretensamente erótica ou os jeans rasgados nas coxas apertadas. Nunca palrará daquela forma primária e nunca usará os paupérrimos estratagemas de “engate” que parecem comuns a estas putas iludidas.Tendo em conta a qualidade do produto que oferece, o preço é elevadíssimo.
Que ninguém se iluda. 200€ por hora e 800€ por noite significa a mais abjecta decadência para uma verdadeira puta de luxo.
Pobre jornalismo comido por putas.
Em Roma sê puta
Na Roma Antiga existia um incrível e complexo sistema hierárquico para as prostitutas. Vejamos:
Delicatae – nível mais elevado. Mulheres sustentadas por homens ricos;
Famosae – filhas e esposas, de famílias ricas que se prostituíam por prazer;
Meretrix – prostitutas profissionais, de carreira;
Prosedae – mulheres que esperavam diante dos bordéis pelo fregueses;
Nonariae – passeantes nocturnas proibidas de aparecer antes da hora nona;
Mimae – actrizes mímicas, invariavelmente prostitutas;
Cymbalistriae – tocadoras de címbalos;
Ambubiae – cantoras;
Cithatistriae – harpistas que deambulavam ao luar;
Scortum – prostitutas vulgares;
Scorta erratica – prostitutas ambulantes que palmilhavam as ruas;
Busturiae – deambulavam pelos funerais para consolar os infelizes enlutados;
Copae – empregadas de tabernas e de quem deriva a palavra “Cópula”;
Doris – dotadas de beleza particular que actuavam nuas;
Lupae – lobas, conhecidas pelo uivo que davam quando fingiam o orgasmo e pelas suas habilidades com a língua;
Aelicariae – raparigas em padarias que vendiam bolos com forma de falos. Atendiam os clientes enquanto o pão estava no forno – fornix – daí a palavra “fornicação”;
Noctiluae – passeantes nocturnas;
Blitidae – empregadas de taberna de classe inferior que vendiam bebidas baratas;
Gallinae – prostitutas com tendência carteirista (debicavam qualquer coisa e espalhavam tudo à volta, como as galinhas);
Diobolares – prostitutas que praticavam sexo pela pechincha de 2 óbolos;
Amasiae – amadoras entusiastas danadas;
Quadrantariae – as que já mereciam a reforma.
Não é difícil perceber que muitos destes grupos sobreviveram e que, indiscutivelmente, eu faço parte do primeiro, embora não rejeite mais alguns.
7.06.2026
Uniões de facto
Sou puta.
Não adianta escamotear o facto declamando em surdina “sou acompanhante de luxo”. Não me rasgo nas esquinas ou desfaço nas ruelas. Deslizo nos soalhos polidos dos hotéis galácticos, esvoaço em condomínios fechados, nas lacas dos móveis raros onde me dispo ou me despem, pousando nos tapetes persas e no silêncio macio de lençóis de seda e de cetim o meu desprezo pelos que me pagam.
Mas sou puta.
A melhor das ocupações para que o sexo consiga unir o útil ao agradável.