A lentidão, o retardar propositado de sensações, o prolongar exaustivo do prazer, o tantricamente cansatuvo amor, o “nem se vem, nem sai de cima”, nunca foram do meu agrado.
Existe aquilo que, simplificando, chamo o “silvo da serpente”.
É o instante brevíssimo em que o orgasmo se torna avassalador, impaciente, inevitável e impossível de se retardar, de se adiadar.
O “Silvo da Serpente” é o instante em que o meu corpo arqueia e fica rouco, é o instante em que fico menor que o sexo que faço e ultrapasso o paraíso atropelando os anjos.
Não se adia o meu orgasmo. Não se atrasa o jacto (falo de aviões) que me leva rumo à mais perfeita das inconsciências.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente”, usando estratagemas para prolongar a noite e a nudez que ofereço, o meu cérebro invade as sensações que até ali lhe eram vedadas.
Racionalizo tudo.
Todos os meus poros se transformam em receptores de informação clara, nítida, “computorizada”, matemática, crua e nua, isenta de prazer e desconfortável para o meu parceiro.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente” prolongam pela noite dentro, horas a fio, a erecção, arriscam a minha ausência de prazer e abrem o palco à comédia que vejo nos esforços, agora inúteis, do parceiro extenuado, quase morto de tão gasto.
Todo o orgasmo deverá ser Wagneriano e chegar no momento em que se abre o pano e se ouve aplaudir. Não adianta cantar árias de ópera bufa, mesmo quando sabemos que, se cantarmos muitas, podemos retardar o fim do espectáculo.
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