15.7.26

O primeiro brilho

Aos dezassete anos percebi que me podia vender caro e obter de forma simples aquilo que as outras apenas se permitiam vir a sonhar ter no futuro.
Lembro-me que o meu primeiro cliente foi um amigo do um pai. Um senhor respeitável e elegante, alto e magro, de olhos tristes e escuros, de barba rasa e grisalha,  brasão no anelar, junto à aliança grossa que rodava no dedo fino.
Ofereceu-me uns brincos com brilhantes pequeninos e justificou a oferta com a proximidade do meu aniversário. Acreditaram.
Fez sexo comigo com desvelo no quarto em que dormia separado da mulher, matrona anafada que nunca se apercebeu que a menina de olhos cinzentos trazia o veneno da mais descontrolada ambição a correr-lhe no sangue, mesmo o falso que fingi ter manchado o lençol e que foi lavado à pressa pelo homem escanzelado, no WC da suite, enquanto a putinha roía as unhas e esperava a recompensa.
Ainda tenho os brincos com pequenos brilhantes. Guardo sempre um vestígio dos que por mim cavalgam. Tristes e torcidos troféus. Equívocos que quero lembrar, porque me ajuda a manter de pé a ilusão de ser a predadora.
Durante um semestre foi amante dele e coleccionei às escondidas as pequenas jóias com que me comprava.
Depois, cansei-me.
Choramingou o abandono. As lamentações e o choradinho enfastiavam-me.
Ameacei revelar ao meu pai que o recebia confiante e com ele discutia mulheres, futebol e carros, as sucessivas “violações” de que era “vítima”.
Voltou a chorar. Desta vez alto e ofereceu-me, na despedida, o meu primeiro colar de pérolas.
Ainda o uso. Não é troféu. Gosto da tonalidade cremosa que ganhou e sei que as pérolas devem ser usadas para se preservarem.
Às vezes, mordo-o.

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